Brincadeiras sexuais na escola: entender ou reprimir?

Postado em 18 de agosto de 2016 na categoria EDUCAÇÃO E PEDAGOGIA

blog-sexualidade-direto-ao-ponto-educacao-infantilUm dos posts que mais mobilizou os leitores do nosso blog foi sobre a sexualidade infantilEntão, vamos atender  a alguns pedidos que apareceram nos comentários e voltar a falar um pouco no assunto.

Vou contar uma história real. Neste ano, fui convidada por uma escola de Educação Infantil para dar uma consultoria sobre o seguinte caso:

Seis ou sete crianças de aproximadamente cinco anos fizeram uma brincadeira no banheiro: elas se desafiavam a colocar o pênis de um colega na boca. Um dos meninos ficou sabendo da brincadeira e, ao chegar em casa, contou para a mãe o ocorrido. Em pânico, a mãe ligou para os demais pais. Eles combinaram de falar com a diretora da escola – que, até então, não sabia  de nada.

Vocês podem imaginar como a diretora ficou ao saber da história… Sem saber ao certo como lidar com a situação, ela pediu minha ajuda. As dúvidas eram muitas:

– Por que as crianças haviam feito aquilo?
– A brincadeira indicava comportamento homossexual?
– Como indicar às crianças que a brincadeira era imprópria?
– Qual a melhor abordagem para tratar do assunto com os pais?

O que eu fiz
Num primeiro momento, tive uma conversa longa e detalhada com a diretora, com a psicóloga da escola e com a professora que estava responsável pelos alunos durante o momento em que se deu a brincadeira sexual. O objetivo era enteder melhor o que havia ocorrido. Segundo elas, na hora, nada no comportamento das crianças indicava que elas estavam fazendo uma brincadeira. Elas apenas entravam no banheiro, como é comum acontecer. Mas um vídeo da câmara de segurança do pátio mostrava que, enquanto dois deles entravam no banheiro, um tomava conta para avisar caso fossem descobertos. Era um indício de que eles sabiam estar participando de uma atividade que não seria facilmente aceita no ambiente escolar.

A partir desse entendimento preliminar, decidimos abordar o problema de forma global, por meio de quatro linhas de ação:

1- Com os alunos
A psicóloga da escola juntou todos os envolvidos, sem alarde, e conversou com eles pedindo para que contassem sua versão do fato. Também colocou a eles uma questão central: “Qual foi a motivação para fazer a brincadeira?”

A resposta levou ao encaminhamento da conversa: “Foi para provar coragem!”. Eles apostaram para ver quem conseguia vencer o nojo de pôr um pênis na boca.Ou seja: eles sabiam que a brincadeira não era aceitável, mas não pelos motivos que imaginávamos: não havia um caráter de sexualização, mas, sim, um desafio às normas socialmente estabelecidas.

Em uma conversa, a psicóloga mostrou para os pequenos a importância do corpo de cada um, explicando que nele há partes que todo mundo pode ver e até tocar, com a permissão deles. Mas existem outras – como o pênis – que são da nossa intimidade, não devem ficar à mostra e nem ser tocado em brincadeiras. Além disso, ela mostrou que existem muitas formas de coragem, como por exemplo, assumir um erro, enfrentar um colega que queira lhe agredir, defender um amigo, pedir ajuda quando precisa… e que se um tem coragem para uma determinada coisa, o outro pode ter para outra. Não precisa de provas para eles se descobrirem corajosos: no dia a dia eles já são testados com as obrigações e oportunidades que surgem na escola, na sala de aula, na família, na relação com os amigos.

Para finalizar, ela deixou bem claros os limites da escola para aquele tipo de brincadeira: não era para se repetir.

2 – Com os pais dos alunos envolvidos
Eu, a diretora e a psicóloga da escola promovemos um encontro em que deixamos, inicialmente, que eles colocassem tudo o que os estava preocupando com relação à confiança na atenção da escola aos alunos, à segurança e em relação ao significado sexual deste comportamento. As questões relacionais entre pais e escola foram respondidas e ponderadas pela diretora e a psicóloga, que assumiram o compromisso de aumentar a atenção aos alunos nos horários que estão fora da sala de aula e preparar seu professores e funcionários para estarem atentos e saber lidar com o comportamento sexual na infância.

Quanto às questões sexuais, era minha hora de falar. Eu os tranquilizei, principalmente em relação à suposta influência que aquela experiência poderia ter na orientação sexual de seus filhos – uma das principais preocupações dos pais. Mostrei como se dava o desenvolvimento da sexualidade na infância, pontuando que a brincadeira sexual entre crianças da mesma idade não afeta em seu desenvolvimento – e muito menos interfere ou provoca a homossexualidade quando ocorre com crianças do mesmo sexo. O interesse deles não é sexual: é uma questão de curiosidade e oportunidade.

3 – Com os demais pais
Eu realizei uma palestra sobre o desenvolvimento sexual da criança que mostrou como construímos, na infância, os alicerces que compõem nossa sexualidade: a vinculação afetiva, a configuração da imagem corporal, a identidade sexual de gênero , a segurança, os medos e as preocupações… E também as sensações eróticas.

Novamente, o cerne foi indicar que não há nada de errado na expressão da sexualidade na infância – a mudança deve vir mais de nós, adultos, do que deles. Precisamos saber lidar com a situação, ouvindo as curiosidades da criança e, com base nelas, ensinar sobre seu corpo, sua responsabilidade e, principalmente, sobre os limites de boa convivência na família ou na escola.

4 –Com os professores

Fizemos um curso sobre sexualidade infantil, em que todas as temáticas colocadas são detalhadamente conversadas, para que o professor adquira naturalidade e uma postura adequada para lidar com o comportamento sexual na infância.

A partir dessas aboradagens, a situação-problema foi contornada. A escola não passou mais por nenhuma saia justa com a sexualidade de seus alunos. De quebra,  conseguimos realizar um trabalho de orientação com pais, alunos, professores e gestores sobre a importância de entender os comportamentos sexuais dos pequenos – e não apenas reprimi-los quando não os julgarmos adequados.

É isso. Me conte o que achou dessa abordagem. Aproveite e compartilhe sua experiência: você já viveu alguma experiência parecida em sua escola? Compartilhe com a gente nos comentários. Até a próxima

Fonte: NovaEscola


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